Quarta-feira, 6 de Abril de 2011

Poesia tradicional portuguesa ou uma coisa há muito prometida

(Tinha parte destas quadras na cabeça, eles já não se lembravam e tinha ficado de procurar. Descubro versões muito deturpadas do que conheço, o que é natural nestas quadras da tradição oral portuguesa. Escolhi pois a versão que me pareceu mais próxima ao que eu conhecia. Seja como for, servem o propósito, eles riram, adoraram e, receio, vou ter que imprimir para amanhã circular por escolas... depois eu é que fico com fama de pai... enfim, cada um sabe de si :)

 

O CUME

No cume daquela serra
Plantei uma roseira
A rosa no cume cresce
A rosa no cume cheira

Quando cai a chuva grossa
A água o cume desce
O orvalho no cume brilha
O mato no cume cresce

Mas logo que a chuva cessa
Ao cume volta a alegria
Pois volta a brilhar depressa
O sol que no cume ardia

E quando chega o Verão
E tudo no cume seca
O vento o cume limpa
E o cume fica careca
 
Ao subir a linda serra
Vê-se o cume aparecendo
Mas começando a descer
O cume se vai escondendo

Quando cai a chuva fria
Salpicos no cume caiem
Abelhas no cume picam
Lagartos do cume saem

E à hora crepuscular
Tudo no cume escurece
Pirilampos no Cume brilham
E a lua no cume aparece

E quando vem o Inverno
A neve no cume cai
O cume fica tapado
E ninguém ao cume vai

Mas a tristeza se acaba
E de novo vem o Verão
O gelo do cume derrete
E todos ao cume vão

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publicado por joao moreira de sá às 20:21
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4 comentários:
De João Melo a 2 de Julho de 2013 às 03:14
Olá, o meu nome é João Melo, a tal pessoa que musicou este poema; um amigo \'tropeçou\' aqui e conhecendo os contornos do caso chamou-me a atenção para ele. Geralmente não ligo a comentários da net ou outros senão não fazia mais nada na vida mas a questão do direito de autor é... sagrada para mim! O meu respeito pela criação intelectual alheia está na mesma medida daquele que exijo para mim, por isso, ao contrário de alguns Chico-espertos que ainda hoje fazem fortuna roubando despudoradamente as criações de outrem (não é sem-querer) eu sou mais do que cuidadoso; ser acusado mesmo inadvertidamente de ter furtado algo criado por outro seria uma vergonha que nem quero imaginar... Nos anos 80 eu fazia espectáculos em bares com algumas versões humorísticas e pastiches de músicas conhecidas e nessa altura, uma cliente dum bar que tive ofereceu-me umas folhas com inúmeros poemas do Cume da Serra; não eram dela, a avó tinha-os transmitido mas desconhecia a origem. Comecei a recitá-los no contexto do espectáculo que fazia e entretanto já nos anos 90 quando ia gravar o primeiro CD de originais da Fúria do Açúcar a editora quis incluí-los no CD e pediu que os musicasse. Lembrei-lhes que não eram meus, o mais provável seria terem uma origem popular mas certamente que a Sociedade Portuguesa de Autores saberia encaminhar o caso. A internet ainda era uma miragem e com algum trabalho de investigação pessoal acabei por não chegar a nenhuma conclusão quanto à autoria; a referência mais próxima a que cheguei em relação a isso foi a um barão brasileiro do século XIX que os escreveu ou os compilou, não era certo mas também não eram só esta meia-dúzia que aqui aparece: eram páginas intermináveis de poemas \'no cume da serra\'. Barão brasileiro ou domínio público, eu e editora confiámos que o autor não levantaria questões com a música porque se for popular é essa designação que aparece na autoria da letra e ponto final, se for o tal barão já passaram mais de 50 anos após a sua morte, ou seja, não tenho de pedir autorização ao autor para a usar com uma música minha. Os direitos das letras populares ou de autores que faleceram há mais de 50 anos são distribuídos em parâmetros definidos pela SPA, portanto não ganho nada com isso, apenas os 50% referentes à música mas também não me chateio com eventuais entraves ou recusa do autor. Entreguei os temas todos do CD para registo com esta e outra letra popular para aprovação normal dos serviços e qual não foi o meu espanto quando na SPA me dizem que estes poemas são de um autor vivo! Argumentei que isso era impossível, eu próprio tinha investigado e além de muito antigos não era clara a assumpção da sua autoria, logo seriam do domínio popular; confirmaram que o registo era mais ou menos recente e estava num nome que concluí ser o verdadeiro de um indivíduo que nos anos 80 era uma espécie de concorrente ao meu trabalho. Quer dizer: eu sei que os poemas não são meus nem de ninguém, vou pedir autorização, uma mera formalidade para os usar e dizem-me que pertencem a um espertalhão qualquer que os registou como sendo dele... Fiquei furibundo! É que há outro pormenor curioso: em mais de uma dezena de poemas do Cume da Serra que estavam na folha e das centenas que conheci posteriormente, usei sempre 5 em concreto que eu próprio escolhi como mais interessantes para manter o ritmo do espectáculo e encadeei-os numa determinada lógica narrativa; ele há coincidências do arco da velha: eram precisamente esses 5 que estavam registados na SPA o que mostra desconhecimento pelos outros, só os pode ter ouvido da minha boca tal como sempre os reproduzi (havia mais, palhaço!) ou então se os conhecia mostrou reverência pela minha escolha! Mas a minha raiva não ficaria só por aqui: como antigamente os registos na SPA eram morosos e havia o pleno convencimento de que estes poemas não levantariam problemas por serem de autor popular, a editora já tinha mandado o CD para a fábrica com esse tema incluído; nunca ninguém imaginou que ainda tivéssemos que pedir ao sr. Espertalhão para nos deixar usar a \'sua\' criação poética. Fiquei indignadíssimo porque não fora a tremenda perda financeira e a chatice de timings da editora mandar o CD para trás, eu nunca me teria sujeitado a esta humilhação: ter de pedir a um tipo que usurpou o talento criativo alheio mais a minha própria forma de organizar os poemas? Repare: eu não quero a glória de ter escrito isso porque não fui eu nem o dinheiro que nunca me daria porque não são meus mas irrita-me solenemente esse tipo ser legalmente o seu autor e ainda por cima ter de partilhar direitos com ele! Irrita-me ficar com o meu nome ligado a esse para sempre e contra a minha vontade! Que é feito dele? Onde está o resto da obra que deu origem a esta brilhante criação, este momento de inspiração ou a obra que previsivelmente sucedeu a esta? Ah... Foi só aquilo? Pois, acontece muito a quem copia: não consegue fundamentar o que escreve ou voltar a escrever algo similar...
De João Sá a 2 de Julho de 2013 às 03:47
Meu caro João Melo,

Relendo o início do meu post (confesso que não me lembrava de ter feito referência à versão musicada por si/Fúria do Açúcar e que, revendo agora, até é descabida no contexto do post), vejo que há uma série de coincidências e mal entendidos.

Começam as coincidências por, apesar de - talvez como essa senhora - ouvir estas quadras da minha mãe, que as havia ouvido do seu pai (e por aí fora?), lembro-me de as ouvir musicadas por si precisamente do tempo em que nos encontrávamos com frequência, fosse em bares, fosse na antiga FIL, na BTL onde você costumava estar no pavilhão ao lado do "meu" a animar o Clube VIP precisamente com essas versões humorísticas de que me fala e que, concordo, em nada desrespeitavam os direitos de autor. Sim, eu sou um dos privilegiados que já cantarolava "eu gosto é do verão..." antes de ser editada em CD :)

Pelo que me conta, percebo o porquê de ter feito aquela referência, por estar a letra/versos creditados a um autor (sobre o qual eu desconhecia naturalmente essa apropriação da sua adaptação musical, mas há sempre bons "artistas" em todo o lado e ramos) em vez de creditadas como Tradicionais o Populares como penso seria - se bem entendi - a sua intenção, não sendo possível determinar o real autor, tendo prescrito os respectivos direitos e havendo uma clara e reconhecida tradição de transmissão oral destas quadras - o que justifica e acresce como prova a variedade de "versões"/quadras existentes.

Lamento profundamente ter feito aquela referência (que de resto está apagada, por injusta a por nem sequer acrescentar nada de útil ao conteúdo do post).

Eu também sou autor, escrevo, e embora não sendo uma figura pública, algum humor que escrevo sob o pseudónimo Arcebispo de Cantuária já tem sido alvo de cópia e apropriação e sei qual é a sensação de ver num blog, Facebook, Twitter, uma piadola que eu escrevi ser publicada por outro como dele. por isso, creia que nisso, jogo na sua equipa, jamais desrespeitaria os direitos de autor fosse de quem fosse e em que área fosse.

Lamento o tempo que perdeu a escrever-me e peço que, perante a explicação acima, aceite as minhas desculpas e os meus agradecimentos por tantos anos de música (para mim tão sagrada como os direitos de autor) que me tem proporcionado.

(ah, e confesso que ainda com saudades dos fins de dia na BTL quando o Capristano "abria" o bar :)
De José Brandão a 3 de Janeiro de 2016 às 00:17
João Melo
Contacta-me 967654200
De Marcos Jacoby a 24 de Junho de 2016 às 19:49
Muito semelhante ao poema de Laurindo José da Silva Rabelo, patrono na Academia Brasileira de Letras, intitulado "As Rosas do Cume", que se encontra na obra de TINHORÃO , José Ramos. História Social da Música Popular Brasileira. São Paulo: Editora 34, 1998. p. 144.
Laurindo José da Silva Rabelo (Rio de Janeiro, 8 de julho de 1826 — Rio de Janeiro, 28 de setembro de 1864) foi um médico, professor e poeta romântico brasileiro, patrono na Academia Brasileira de Letras.

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Arcebispo de Cantuaria Uma mente delirante e não muito normal encerrada num corpo com 40 anos (embora um teste da Sábado diga que na realidade tenho 47). Presentemente desempregado mas com boas perspectivas de conseguir vir a trabalhar num call-center. Escrevo porque não gosto lá muito de falar e como irresponsável que sou, acredito que um dia ainda irei conseguir ser pago para escrever. jmoreiradesa@gmail.com

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Podia ser (mais) culto, ler e reler os clássicos da literatura, devorar ensaios, ler diariamente os jornais nacionais e alguns estrangeiros, assinar as revistas de referência mas diversas áreas do saber. Podia, e gostava, mas era preciso que estivessem reunidas duas condições, ter dinheiro para tal e acima de tudo, não ter filhos de tenras idades. Mas enquanto cada hora dedicada a ler a opinião dos cultos deste mundo sobre as suas (poucas) graças e (muitas) desgraças - do mundo e às vezes dos próprios - representar uma hora a menos de brincadeira, receio que vou continuar a optar por ser culto lá mais para o fim da vida, se lá chegar.






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