Segunda-feira, 3 de Março de 2008

(autismo)

 
- A., ouviste o que eu disse?
 
- M., importas-te de me responder.
 
- A., vem para a mesa.
 
- M., veste-te.
 
etc.
 
Não tem lógica, pois não? Costumo reproduzir aqui diálogos, ali estão frases soltas, sem resposta. Porquê? Porque neste post de hoje não há espaço para o humor.
Passemos ao parágrafo seguinte.
 
Tenho um estranho fascínio pelo autismo. Por informação recolhida, ouvida, filmes vistos mas sobretudo pelo genial livro de Mark Haddon, "O Estranho Caso do Cão Morto", fui conhecendo um pouco os diferentes tipos de autismo, os comportamentos, as particularidades, e as dificuldades, pessoais e familiares.
O apelo do mistério sobre aqueles cérebros não apaga o dramático de cada situação, a impossibilidade de comunicação, a impotência perante a total ausência.
Ao explorar a curiosidade descobre-se uma realidade assustadora, para qualquer "pai", este estranho "pai" que é também mãe.
Passemos ao último parágrafo para juntar 1+1.
 
Cá em casa não há Consolas. Temos sofrido pressões, ainda não chegámos ao tráfico de influências mas deve estar por meses (já não adianta tentar medir o tempo em anos). Houve uma cedência intermédia, dois Nintendo DS Light (um preto e um cor de rosa, os gajos são espertos). Junte-se a isso a praga que me apareceu quando para não ter antena no telhado fui invadido por Pandas e Nickelodeons e o que é que se obtém?
Autismo.
Atrevo-me a generalizar, o comportamento de uma criança presa a um écran não difere em muito do de uma criança com autismo.
 
Porquê este texto? Porque me assustei. Agora, Tv só depois do jantar e até à hora de ir para a cama (rende-lhes no máximo uma horita) e Nintendo só à 6a Feira (é regra da escola, colei a minha). Demorou dias até preencherem o tempo vazio em... Brincar, ler, desenhar, jogar futebol (aqui o feitiço vira-se contra o feiticeiro, mas compensa).
Para fazer a coisa justa, damos-lhes também o nosso tempo. Faz falta, mas é tão justo como gratificante. Recupera-se FAMÍLIA.
 
Este é um caso, o meu caso. Cada um sabe de si. Este texto não é moralista, só quer dar que pensar fazendo um apelo, olhem para o comportamento dos vossos filhos perante estes canais de Tv non-stop, Play-Stations, Nintendos, PSP's e afins - oferta não falta - e leiam ou vejam algo sobre os comportamentos de crianças autistas, depois tirem as vossas conclusões...
(e não tenham medo de tomar medidas. Não julguem as minhas, mas acreditem que os protestos são temporários).
 
Ah! E outra coisa, se revirem alguém neste contexto, com toda a modéstia, enviem-lhe(s) o link.
 
publicado por joao moreira de sá às 08:29
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6 comentários:
De InConsciente a 3 de Março de 2008 às 22:57
Fiquei com um sorriso gigante por saber que ainda há meninos e meninas que brincam com todas as ferramentas da imaginação :)
Saltar, correr, pintar, rebolar... saudades de saltar à corda nos intervalos, de saltar ao elástico "1,2,3...", do macaquinho do chinês, da apanhada, da macaca, da sirumba (não sei se está bem escrito), do piolho, de colorir a estrada da rua das minhas amigas com enormes desenhos feitos a giz... :)
E o livro é de facto muito bom.
E sei de uma pessoa de deve ler este post...
Sorriso grande
De joao moreira de sá a 4 de Março de 2008 às 11:36
... e fisgas com paus e arcos e flechas com paus, e ir apanhar musgo ao pinhal no natal, e ir à praia e tomar banho no inverno, e mexer nos caracóis, lagartas, minhocas, e plantar flores, e ficar verde de relva e tomar um duche de mangueira, e andar de bicicleta, e calças rasgadas nos joelhos...

é uma questão de opção, pelo preço de uma moradia em Azeitão não arranjava um T4 em Lisboa...


"E sei de uma pessoa de deve ler este post..."
e eu sei de váááárias...
De Anónimo a 6 de Março de 2008 às 10:12
Todos nós deviamos usar um pouco do nosso tempo, por mais escasso que seja, para pertencer á "familia".
Não podemos nunca limitar-nos a pertencer ao trabalho, á casa, ás obrigações, ás chatices, aos problemas e por ai..
Os nossos pirralhos precisam de nós..em lisboa, em azeitão...na china.. E certamente que não é a electronica que nos substitui a nós pais.
Estar atento é mais que um dever, é uma obrigação.
Apoiar e transmitir valores, mas sem lhes por uma venda para a realidade pode atéser custoso, mas certamente que compensa!
O texto não é moralista, é certo.
Mas faz-nos pensar.
Adorei.
Vou continuar por aqui.
É realmente muito bom.

De joao moreira de sá a 6 de Março de 2008 às 10:39
As "electrónicas" são um espelho de toda a soviedade de agora e muito em particular a nossa (em tudo semelhante, de resto, à atitude dos nosso governantes): resolvem o "problema" no presente, criam um enorme problema no futuro.

Nos dias que correm é dificil arranjar tempo? É. Mas arranjamos para os fazer... depois entre escola, tv e play-station as coisa resolve-se. Ou assim parece, até que crescem e um dia damos por nós a pensar "dei-lhes tudo, onde é que foi que eu errei?". Nisso, dar-les tudo.

É dificil arranjar tempo? Não, muito mais dificil é encontrar imaginação. "agora não posso, tenho que fazer o jantar". Que tal "agora não posso mas vem ajudar-me a fazer o jantar". E vêem. E adoram. E a brincar aprendem.

Tudo uma questão de perspectiva e imaginação. Porque não podem ser sacrificios, devem, têm que ser prazeres comuns.

E como compensam...
De Sofia a 6 de Março de 2008 às 12:41
Por erro meu, não me identifiquei há pouco.
Concordo contigo (peço desculpa pelo tratamento por tu) em todos esses aspectos.
O que parece para alguns agora ser uma escapatória até bem simples e uma forma de entreter as crianças durante batalhões de tempo, vai reflectir-se mais tarde da pior forma possivél.
Não deve, ou pelo menos, naõ deveria, ser agradavel para qualquer pai sentir que errou.
Coisas simples como "faz um desenho aqui ao pé da mama enquanto faço o jantarinho e conta-me como correu a tua escolinha hoje" (a minha filhota prefere o desenho a fazer o jantar) fazem toda a diferença.
Pelo menos para mim.
Todo o tempo é pouco para partilhar com quem mais precisa de nós e com quem nós mais precisamos.

A parte em que compensa..é um anular de tudo o que de menos bom temos que passar por vezes para os educar (em todos os sentidos, como pessoas, como crianças, como futuros adultos)

E já agora, um "á parte"
A ideia da pilula diluida na sopa!!
Vou adopta-la!! ;)

E um obrigada pelo abrir de olhos, que a meu ver anda a ser preciso..
De adnirolfpa a 17 de Março de 2008 às 16:32
Esta coisa de filhos é um pouco estranha. Deve ser a tarefa mais complexa que o ser humano tem.
Eu tenho 3 rapazes maravilhosos. Tão diferentes em idades como em temperamentos. Desde muito cedo optei por ignorar o termo com que os outros pais amigos me baptizaram"Retrógada". Claro que acho que a tecnologia é importantissima (senão como estaria aqui??) Mas muito mais importante é tudo o resto. Não arrumar a cozinha, para ouvir um pouco o que tem a dizer mesmo que pareça sem importancia. Brincar, ler cantar, rir muito, chorar, sujar jogar, ralhar.... como é bom fazer isto tudo com os filhos. Mesmo sem poder ter coisas luxosas, nem empregos importantissimos. Quem me dera poder viver no monte, calma e tranquila deixando que a natureza me inspire e me ensine a viver.(As vezes até consigo, por uns dias)
Bem Hajas.
Por nos lembrares que "Não somos os unicos"

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Arcebispo de Cantuaria Uma mente delirante e não muito normal encerrada num corpo com 40 anos (embora um teste da Sábado diga que na realidade tenho 47). Presentemente desempregado mas com boas perspectivas de conseguir vir a trabalhar num call-center. Escrevo porque não gosto lá muito de falar e como irresponsável que sou, acredito que um dia ainda irei conseguir ser pago para escrever. jmoreiradesa@gmail.com

.A razão porque este belogue existe

Podia ser (mais) culto, ler e reler os clássicos da literatura, devorar ensaios, ler diariamente os jornais nacionais e alguns estrangeiros, assinar as revistas de referência mas diversas áreas do saber. Podia, e gostava, mas era preciso que estivessem reunidas duas condições, ter dinheiro para tal e acima de tudo, não ter filhos de tenras idades. Mas enquanto cada hora dedicada a ler a opinião dos cultos deste mundo sobre as suas (poucas) graças e (muitas) desgraças - do mundo e às vezes dos próprios - representar uma hora a menos de brincadeira, receio que vou continuar a optar por ser culto lá mais para o fim da vida, se lá chegar.






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